segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Cor de rubi

A música tocava insistentemente. Uma mistura de Beethoven e Bach trazia notas melodiosamente tenebrosas. Rita conseguia apenas enxergar aquele vermelho no chão, um sangue que contrastava com o azulejo branco de seu quarto. Aquele que um dia abrigara o amor de um casal apaixonado, ela e seu marido: Raul.

Os olhos estavam abertos. Rita tratou de fecha-los rapidamente, não suportou o olhar fixo daquele cadáver. Cortou fora a cabeça, a fim de manter pelo menos ali, em suas mãos, a vida de seu agora então, ex-eterno-marido. O mesmo a quem considerava amante, companheiro e tudo o mais.

Rita passara seus quase trinta anos procurando o sucesso. Sua visão – e também sua meta – era a carreira, o lado profissional sempre saíra vencedor. O lado pessoal, e também amoroso, era deixado de lado na maioria das vezes. Sua criação fora bastante opressora e de um enorme trauma.

Tinha uma irmã, Heloísa, a caçula. Esta última sempre atraíra a atenção de todos, fazendo com que Rita se sentisse desfocada, abandonada por muitos. Seu ciúme – ou inveja – sempre fora muito grande, e como conseqüência, crescia dentro dela uma angústia e dor intermináveis, a tornando fria como pedra, apesar de sempre querer mostrar seu lado humorístico e simpático, mesmo sendo tão mínimo.

Empresária bem sucedida, não tinha do que reclamar em termos de carreira e profissão. Beleza também tinha, em um bom grau. Mas esses fatores não a preenchiam... Passara sua vida inteira, até o presente momento, esperando cumprir seus planos, achando que a realização viria conseqüentemente como fruto do sucesso. Mas não.

Quando conheceu Raul, aos seus trinta e poucos anos, começou a mudar aos poucos. De repente, já se podia perceber um sorriso verdadeiro em seu rosto. Suas feições haviam mudado. Já via a vida de uma nova maneira, as cores se tornaram mais atrativas, seu mundo agora era repleto de uma nova energia.

Julgava Raul como um presente, e de fato, a fazia muito bem. Quando Petrus nasceu, se considerava a mulher mais feliz. Porém, Heloísa sempre estava por perto. Parecia rodear aquela casa com a sua vida solitária e infeliz, como uma mosca atrás de restos aproveitáveis. Rita começara a incomodar-se. Sentia-se invadida, principalmente com as visitas incessantes, não somente em horários usuais de visitantes comuns, mas com a freqüência em que aquele hábito era feito.

Verdadeiramente, não gostava de assumir, mas nutria um ódio de proporções enormes pela sua irmã. E a respeito de Raul, Rita já ocupava o cargo de ciumenta, sempre fora. Talvez como uma conseqüência de sua insegurança já antiga. Mas com a freqüência de sua irmã em sua vida – aquela vida em que julgara que encontraria uma saída para aquele convívio familiar infeliz – via tudo o que construiu indo por água a baixo.

Nascia a quintessência de seu ser. Renascia das cinzas, na verdade. Esse seu lado, que muitos diriam ser o diabólico, já a habitava a tempos. A culpa era de Heloísa, Rita acreditava. E agora, a primogênita carrega a culpa do renascimento também. As cinzas, foram feitas por Raul. Seu marido havia a transformado em alguém melhor, muitos diziam – inclusive sua consciência.

Porém, assim como Raul a fazia ser alguém melhor, Heloísa trazia o efeito contrário. O ódio só fazia crescer cada vez mais em de Rita; mas decidiu acalma-lo – pelo menos por enquanto.

Em um dia, que Rita achava que era apenas mais um dia qualquer, chegava cansada em casa, como era comum acontecer. Havia passado o dia em reuniões estressantes, fechando contratos importantes com empresas nacionais e internacionais. Chegou mais cedo e Petrus ainda estava na escola. Andou até seu quarto, com saudades de Raul. Mas ao abrir a porta, avistou Heloísa nua, naquela cama onde jurava que ninguém, além dela e seu marido, poderia estar. Raul estava em êxtase, até a perceber no quarto.

Beethoven e Bach tocavam suas melodias, assim como seu marido sabia que Rita adorava. Ela então percebeu que todo o ambiente estava igual a como costumava ser. A única parte que destoava o lugar-comum, era aquele ser repugnante, sua irmã mais velha.

Não sabia porque, nem como Raul tinha sido capaz de tal gesto assombroso. Naquele exato momento, sentiu como se houvesse morrido, então agiu impulsivamente, como nunca agira antes em toda a sua vida. De uma hora para outra, seu ódio transferiu-se para o marido. Esqueceu-se de Heloísa por alguns instantes – esses mesmos que a permitiram escapar – e apenas queria vingar-se de Raul. Aquele seu marido que sabia o quanto sofrera, mesmo que calada, por tudo que sua irmã havia feito.

Em uma gaveta de seu criado-mudo, guardava um facão, para qualquer necessidade inesperada. Chegara a hora então. Com aquele instrumento perfurou o coração de Raul, fazendo com que este nunca mais pulsasse por ninguém, nem por ele mesmo. Surgiram mais nove golpes. Seu marido já estava sem vida, porém seus olhos a fitavam friamente com olhos de cadáver. Fechou-os. Então, quis guardar aquele rosto para si. Cortou a cabeça de Raul, querendo apenas olha-lo.

Deliciava-se com o brilho do vermelho, aquele lago cor de rubi. O contraste com o branco do chão realmente parecia ser como um quadro de arte moderna, e Rita adorava.

Seus braços doíam. Quem a agarrava? Não, não queria aquelas longas mangas brancas. Não conseguia mover seus braços... O que estava acontecendo? Heloísa... Não, o que Petrus estava fazendo ao lado dela? Porque estavam a levando para fora? Que lugar é esse? É hora da homeopatia!

Um comentário:

Aninha disse...

como diria a propria autora do texto, sensacional! e como diria eu, fantástico!