terça-feira, 8 de setembro de 2009

Macaca

Por Delianne Lima


Passos estranhos de uma ruiva de farmácia. Não era loira oxigenada, seria pior. Tinha um quê de fantástico naqueles gestos. “Uma macaca, parece” – pensei. Do mesmo jeito quis chegar mais perto, quem sabe. Quase que automaticamente me pus a observá-la de maneira contínua. Percebendo, me retornou os olhares sorridentes. O suor demonstrava o prazer que sentia ao dançar seus passos que chegavam ao calor do bizarro.

Gostei de olhar, sentir aquela alegria de um forró dançante e ruim. “Ela gosta”, meus pensamentos fluíam como a cerveja em minha garganta. Era suave. Nem forte, nem fraco: suave. Chegou perto, convidando-me a entrar em sua dança excêntrica. Senti vontade de dividir aquela alegria e entrei nos movimentos. Agora eram duas macacas, felizes. Ela, vinda do Pernambuco, com seus traços de plástica e anos de vida. Eu, belenense de raiz, mas com faces italianas e portuguesas. Sangues holandeses, negros e indígenas misturados em um só indivíduo. Completamente brasileira, diria eu.

Observando-a, sentia como se tivesse perdido o dom da dança – no que eu costumava me destacar. Os passos chegavam ao obsceno-ridículo, convidando-me a remexer meus quadris como ela. Como estava ali de passagem, sem me preocupar com maiores fatores, resolvi entrar no seu ritual particular. Algo de belo era mesclado com a estranheza grandiosa do momento.

Meus ouvidos já reagiam com sorrisos às melodias desafinadas com batidas irritantes. “Vamos, assim. Isso, desse jeito!”, dizia a ruiva. “Vou ao banheiro”, completou com um olhar fulminante e convidativo.

3 comentários:

Aninha disse...

mas que maravilha de texto!
estou impressionada, sem mais palavras, estás escrevendo de maneira absurdamente poética, adoro isso

Déborah Rodrigues disse...

Por um momento o diferente te domina e te conduz para um caminho estranhamente convidativo.

beth disse...

Uma macaca feliz,você é agora :}