domingo, 24 de outubro de 2010

O filho dos Rebouças

(Por Haroldo França)

O Sol entrando pela janela como o resquício de um sonho. O filho dos Rebouças abriu os olhos devagar. Ouviu o som da campainha. Ding. Dong. E algo que veio de dentro de si o fez sentir vontade de se levantar. Mas ele ficou lá. O som da campainha ainda ecoando. E algo que veio de dentro de si o fez sentir vontade de salivar... E ele ficou lá. Babando no travesseiro. O sol tocando em sua pele. E ele lá, babando no travesseiro. O filho dos Rebouças era distante e nublado, como um sonho. Tinha o céu nos olhos, fechados, comprimidos sobre a nuvem úmida que os acolhiam.


O Sono.

Os coveiros estão ficando presos na máquina! Eles são muito numerosos, e dançam com suas pás entre as engrenagens, fazendo a terra molhada ser lançada contra os ventiladores, e eu os ouço repetirem meu nome, harol-dô, harol-dô, harol-dô-dô-dô- Eu estou colocando as pedras na orelha esquerda, mas com a direita ainda posso ouvir. E vou repetir só mais uma vez: Se eu ouvir mais uma canção gospel, vou cavar até a Babilônia. Quero uma cerveja!


Ding.

Dong.

-Bom dia. Meu nome é Haroldo. Sei como se sente. Eu moro no andar de baixo. Eu ouço você tirando o seu lixo. Eu ouço você com os seus namorados. Eu ouço você com você mesmo, também. Eu ouço você dando descarga na privada. Eu ouço você desligando seus pensamentos. Eu desligo os meus, também. Tem momentos, no meio da noite, que a única coisa que eu ouço é você... e... me desculpe a sinceridade, mas... você não soa legal. Sei lá, você não soa certo. Não soa bom. Eu sempre ouço você desligando seus pensamentos, e fica tudo quieto... Tudo tão quieto! Tão calmo, como uma sirene de polícia checando a nossa vizinhança, esperando que alguma lâmina deslize ou que alguma bala se lance para um golpe final, mas nada acontece. Nada! Nada...


O Sonho.

Os coveiros estão ficando presos na máquina! Eles dançam com suas pás entre as engrenagens! Eu os ouço repetirem meu nome, alfre-dô, arnal-dô, ziral-não!, harol-ah!, não-dô, não-dô! Sim, a lama voa pelos ares, e as pedras invadem os meus ouvidos por ambos os lados, mas eu ainda posso ouvir, ainda posso ouvir, ainda posso ouvi-i-i-i- E se eu ouvir mais uma música sobre anjos, veja bem, veja meu bem, vou repelir pela última vez, eu vou cantar até a Babilônia, e quero minhas cervejas, quero minhas cervejas, quero minhas cervejas now!


O Despertar?

O filho dos Rebouças era distante e nublado, como um sonho. A saliva no travesseiro. E a água escorrendo pela torneira:

Fevrale dostat chernil i plakat
Pisat O Fevrale navsnryd
Poka grohochushaya slyakot
Vesnoyu charnoyu gorit

Eram as lágrimas de Fevereiro, tentando levar embora as manchas negras da primavera.


O Desperdício.

Um comentário:

Haroldo F. disse...

Fevereiro, leve embora as manchas e chore
Escreva sobre fevereiro em meus lamentos
Mas nesse momento, nevando e trovejando
Na negra Primavera isso queima

(Boris Pasternak)